PJ ou CLT: quanto a proposta PJ precisa pagar para realmente compensar
Uma proposta PJ 20% maior costuma empatar com a CLT, não ganhar. Veja a conta completa com 13º, férias, FGTS, Simples e o risco que não entra em planilha.
A cena é comum: você ganha R$ 8.000 como CLT e aparece uma proposta de R$ 10.000 como PJ. Vinte e cinco por cento a mais. Parece óbvio.
Não é. Feita a conta inteira, essas duas propostas ficam praticamente empatadas — e a PJ ainda vem com riscos que a planilha não mostra.
O erro que faz a PJ parecer melhor
Comparar o salário CLT mensal com o faturamento PJ mensal.
O problema é que a CLT não paga 12 salários por ano. Paga 13,33:
- 12 salários mensais
- 1 salário de 13º
- 1/3 de salário de adicional de férias
São 11% a mais do que o salário nominal, distribuídos ao longo do ano. E ainda tem o FGTS.
A conta completa da CLT
Para um salário de R$ 8.000:
| Item | Valor mensal |
|---|---|
| Salário bruto | R$ 8.000,00 |
| INSS | − R$ 921,51 |
| IRRF | − R$ 1.037,85 |
| Líquido no bolso | R$ 6.040,64 |
| 13º + terço de férias, diluídos | + R$ 888,89 |
| FGTS depositado | + R$ 640,00 |
| Valor mensal real | R$ 7.569,53 |
O FGTS não cai na conta, mas é dinheiro seu numa conta em seu nome — e vira 11,2% do salário quando se conta a multa de 40% em caso de demissão sem justa causa.
A conta completa da PJ
Para um faturamento de R$ 10.000, no Anexo III do Simples com Fator R atendido:
| Item | Valor mensal |
|---|---|
| Faturamento | R$ 10.000,00 |
| Simples Nacional (6%) | − R$ 600,00 |
| INSS sobre pró-labore | − R$ 178,31 |
| Contador | − R$ 300,00 |
| Líquido | R$ 8.921,69 |
Diferença a favor da PJ: R$ 1.352,16 por mês, ou 17,9% sobre o valor real da CLT.
Onde a regra prática popular erra
Você provavelmente já ouviu que a PJ precisa pagar "30% a 40% a mais" para compensar. Rodando a conta, o ponto de equilíbrio neste exemplo é bem menor: R$ 8.561,53 de faturamento — apenas 7% acima do salário CLT de R$ 8.000.
A regra popular erra porque só olha para o que a CLT dá a mais (13º, férias, FGTS) e esquece o que ela tira a mais. Um salário de R$ 8.000 paga R$ 1.959,36 entre INSS e imposto de renda; um faturamento equivalente no Simples paga R$ 778,31. A carga tributária da pessoa física é muito maior que a da empresa nessa faixa, e isso compensa boa parte dos direitos perdidos.
Duas ressalvas importantes, e é aqui que a regra popular acerta pelo motivo errado:
O ponto de equilíbrio sobe com salários menores. Abaixo de R$ 5.000, o CLT é isento de imposto de renda desde 2026 e o INSS proporcional é baixo — enquanto a PJ continua pagando 6% de Simples mais contador, que é um custo fixo. Nessa faixa a CLT ganha com folga.
A conta acima assume 12 meses faturados. Se você pretende tirar um mês de férias sem faturar, precisa produzir o mesmo total anual em 11 meses. O ponto de equilíbrio sobe para cerca de R$ 9.294 — aí sim, 16% acima da CLT.
Faça a sua versão na calculadora PJ ou CLT: ela mostra o faturamento equivalente para os seus números, que costuma ser bem diferente da regra de bolso.
O que a PJ tem que bancar sozinha
Férias. Trinta dias sem faturar. Para manter a renda, você precisa reservar cerca de 8,3% do faturamento todo mês.
13º. Mais 8,3% se quiser manter o padrão de dezembro.
Doença. CLT tem os primeiros 15 dias pagos pela empresa e auxílio-doença do INSS depois. PJ que não fatura, não recebe.
Licença-maternidade ou paternidade. O salário-maternidade existe para contribuinte individual, mas com carência de 10 contribuições e valor limitado.
Aposentadoria. Contribuindo 11% sobre um pró-labore de um salário mínimo, sua aposentadoria futura será de um salário mínimo. Para receber mais, é preciso contribuir mais — o que muda a conta acima.
Seguro-desemprego e aviso prévio. Não existem. O contrato pode ser encerrado com o aviso que estiver escrito nele, que costuma ser 30 dias.
Somando férias e 13º, já se vão 16,6% do faturamento em reserva obrigatória — R$ 1.660 por mês no exemplo. Isso consome a diferença de R$ 1.352 inteira e ainda passa dela.
É a mesma coisa que o cálculo do ponto de equilíbrio de 11 meses mostra por outro caminho, e é a razão pela qual a proposta PJ que "empata na planilha" costuma perder na prática: quem não reserva mensalmente descobre a diferença em dezembro.
O Fator R muda tudo
É a variável que mais mexe na conta e a que menos gente conhece.
Se a folha de pagamento — incluindo o pró-labore do sócio — for 28% ou mais do faturamento, a empresa fica no Anexo III, com alíquota inicial de 6%. Abaixo disso, vai para o Anexo V, com alíquota inicial de 15,5%.
Num faturamento de R$ 10.000, a diferença entre 6% e 15,5% é de R$ 950 por mês. Isso sozinho pode inverter completamente a comparação.
Ajustar o pró-labore para atingir o Fator R costuma ser a decisão tributária de maior impacto para prestador de serviço PJ — e sim, aumentar o pró-labore aumenta o INSS, mas o ganho no Simples costuma superar com folga.
O risco que não entra em planilha
A CLT define vínculo de emprego por quatro elementos (art. 3º): pessoalidade, habitualidade, subordinação e onerosidade. Se os quatro estão presentes, existe vínculo de emprego — independentemente do contrato assinado.
Na prática, se você:
- cumpre horário definido pela empresa,
- responde a um gestor que dá ordens diretas,
- não pode mandar outra pessoa no seu lugar,
- e trabalha só para essa empresa,
...então é um empregado com contrato de PJ. Isso se chama pejotização, e a Justiça do Trabalho analisa os fatos, não o papel.
Se reconhecido, a empresa é condenada a pagar retroativamente FGTS, férias, 13º, horas extras e multas. Para você isso pode parecer bom — mas o processo leva anos, e o efeito prático mais comum é o encerramento imediato do contrato quando a empresa percebe o risco.
Quando a PJ realmente compensa
Não é nunca. Faz sentido quando:
- Você tem mais de um cliente. Aí a autonomia é real e o risco de vínculo cai muito.
- A diferença passa do ponto de equilíbrio calculado, não da regra de bolso. Calcule o seu; ele varia muito com a faixa salarial.
- Você tem despesas dedutíveis reais — equipamento, software, coworking, viagem.
- Você já tem reserva de emergência robusta, porque a proteção agora é sua.
- O faturamento é alto o suficiente para que a economia tributária supere a perda de direitos.
Faça a sua conta
A calculadora PJ ou CLT faz a comparação completa e mostra quanto a PJ precisaria faturar para empatar com a proposta CLT. É o número que muda a conversa numa negociação: em vez de "quero mais", você chega com "para eu ficar igual, preciso de X".
Duas advertências para fechar.
A primeira: desconfie de regra de bolso, inclusive das que este artigo poderia ter repetido. O ponto de equilíbrio depende muito da faixa salarial, do Fator R e de quantos meses você pretende faturar. Em R$ 3.000 a CLT ganha com folga; em R$ 15.000 a PJ costuma ganhar. Calcule.
A segunda: se a diferença for pequena, lembre que a decisão nunca foi só sobre dinheiro. Estabilidade tem valor, e ele não aparece em nenhuma das duas colunas.