Trabalho e carreira

PJ ou CLT: quanto a proposta PJ precisa pagar para realmente compensar

Uma proposta PJ 20% maior costuma empatar com a CLT, não ganhar. Veja a conta completa com 13º, férias, FGTS, Simples e o risco que não entra em planilha.

Por Aurelocomo apuramos6 min de leitura

A cena é comum: você ganha R$ 8.000 como CLT e aparece uma proposta de R$ 10.000 como PJ. Vinte e cinco por cento a mais. Parece óbvio.

Não é. Feita a conta inteira, essas duas propostas ficam praticamente empatadas — e a PJ ainda vem com riscos que a planilha não mostra.

O erro que faz a PJ parecer melhor

Comparar o salário CLT mensal com o faturamento PJ mensal.

O problema é que a CLT não paga 12 salários por ano. Paga 13,33:

  • 12 salários mensais
  • 1 salário de 13º
  • 1/3 de salário de adicional de férias

São 11% a mais do que o salário nominal, distribuídos ao longo do ano. E ainda tem o FGTS.

A conta completa da CLT

Para um salário de R$ 8.000:

ItemValor mensal
Salário brutoR$ 8.000,00
INSS− R$ 921,51
IRRF− R$ 1.037,85
Líquido no bolsoR$ 6.040,64
13º + terço de férias, diluídos+ R$ 888,89
FGTS depositado+ R$ 640,00
Valor mensal realR$ 7.569,53

O FGTS não cai na conta, mas é dinheiro seu numa conta em seu nome — e vira 11,2% do salário quando se conta a multa de 40% em caso de demissão sem justa causa.

A conta completa da PJ

Para um faturamento de R$ 10.000, no Anexo III do Simples com Fator R atendido:

ItemValor mensal
FaturamentoR$ 10.000,00
Simples Nacional (6%)− R$ 600,00
INSS sobre pró-labore− R$ 178,31
Contador− R$ 300,00
LíquidoR$ 8.921,69

Diferença a favor da PJ: R$ 1.352,16 por mês, ou 17,9% sobre o valor real da CLT.

Onde a regra prática popular erra

Você provavelmente já ouviu que a PJ precisa pagar "30% a 40% a mais" para compensar. Rodando a conta, o ponto de equilíbrio neste exemplo é bem menor: R$ 8.561,53 de faturamento — apenas 7% acima do salário CLT de R$ 8.000.

A regra popular erra porque só olha para o que a CLT dá a mais (13º, férias, FGTS) e esquece o que ela tira a mais. Um salário de R$ 8.000 paga R$ 1.959,36 entre INSS e imposto de renda; um faturamento equivalente no Simples paga R$ 778,31. A carga tributária da pessoa física é muito maior que a da empresa nessa faixa, e isso compensa boa parte dos direitos perdidos.

Duas ressalvas importantes, e é aqui que a regra popular acerta pelo motivo errado:

O ponto de equilíbrio sobe com salários menores. Abaixo de R$ 5.000, o CLT é isento de imposto de renda desde 2026 e o INSS proporcional é baixo — enquanto a PJ continua pagando 6% de Simples mais contador, que é um custo fixo. Nessa faixa a CLT ganha com folga.

A conta acima assume 12 meses faturados. Se você pretende tirar um mês de férias sem faturar, precisa produzir o mesmo total anual em 11 meses. O ponto de equilíbrio sobe para cerca de R$ 9.294 — aí sim, 16% acima da CLT.

Faça a sua versão na calculadora PJ ou CLT: ela mostra o faturamento equivalente para os seus números, que costuma ser bem diferente da regra de bolso.

O que a PJ tem que bancar sozinha

Férias. Trinta dias sem faturar. Para manter a renda, você precisa reservar cerca de 8,3% do faturamento todo mês.

13º. Mais 8,3% se quiser manter o padrão de dezembro.

Doença. CLT tem os primeiros 15 dias pagos pela empresa e auxílio-doença do INSS depois. PJ que não fatura, não recebe.

Licença-maternidade ou paternidade. O salário-maternidade existe para contribuinte individual, mas com carência de 10 contribuições e valor limitado.

Aposentadoria. Contribuindo 11% sobre um pró-labore de um salário mínimo, sua aposentadoria futura será de um salário mínimo. Para receber mais, é preciso contribuir mais — o que muda a conta acima.

Seguro-desemprego e aviso prévio. Não existem. O contrato pode ser encerrado com o aviso que estiver escrito nele, que costuma ser 30 dias.

Somando férias e 13º, já se vão 16,6% do faturamento em reserva obrigatória — R$ 1.660 por mês no exemplo. Isso consome a diferença de R$ 1.352 inteira e ainda passa dela.

É a mesma coisa que o cálculo do ponto de equilíbrio de 11 meses mostra por outro caminho, e é a razão pela qual a proposta PJ que "empata na planilha" costuma perder na prática: quem não reserva mensalmente descobre a diferença em dezembro.

O Fator R muda tudo

É a variável que mais mexe na conta e a que menos gente conhece.

Se a folha de pagamento — incluindo o pró-labore do sócio — for 28% ou mais do faturamento, a empresa fica no Anexo III, com alíquota inicial de 6%. Abaixo disso, vai para o Anexo V, com alíquota inicial de 15,5%.

Num faturamento de R$ 10.000, a diferença entre 6% e 15,5% é de R$ 950 por mês. Isso sozinho pode inverter completamente a comparação.

Ajustar o pró-labore para atingir o Fator R costuma ser a decisão tributária de maior impacto para prestador de serviço PJ — e sim, aumentar o pró-labore aumenta o INSS, mas o ganho no Simples costuma superar com folga.

O risco que não entra em planilha

A CLT define vínculo de emprego por quatro elementos (art. 3º): pessoalidade, habitualidade, subordinação e onerosidade. Se os quatro estão presentes, existe vínculo de emprego — independentemente do contrato assinado.

Na prática, se você:

  • cumpre horário definido pela empresa,
  • responde a um gestor que dá ordens diretas,
  • não pode mandar outra pessoa no seu lugar,
  • e trabalha só para essa empresa,

...então é um empregado com contrato de PJ. Isso se chama pejotização, e a Justiça do Trabalho analisa os fatos, não o papel.

Se reconhecido, a empresa é condenada a pagar retroativamente FGTS, férias, 13º, horas extras e multas. Para você isso pode parecer bom — mas o processo leva anos, e o efeito prático mais comum é o encerramento imediato do contrato quando a empresa percebe o risco.

Quando a PJ realmente compensa

Não é nunca. Faz sentido quando:

  • Você tem mais de um cliente. Aí a autonomia é real e o risco de vínculo cai muito.
  • A diferença passa do ponto de equilíbrio calculado, não da regra de bolso. Calcule o seu; ele varia muito com a faixa salarial.
  • Você tem despesas dedutíveis reais — equipamento, software, coworking, viagem.
  • Você já tem reserva de emergência robusta, porque a proteção agora é sua.
  • O faturamento é alto o suficiente para que a economia tributária supere a perda de direitos.

Faça a sua conta

A calculadora PJ ou CLT faz a comparação completa e mostra quanto a PJ precisaria faturar para empatar com a proposta CLT. É o número que muda a conversa numa negociação: em vez de "quero mais", você chega com "para eu ficar igual, preciso de X".

Duas advertências para fechar.

A primeira: desconfie de regra de bolso, inclusive das que este artigo poderia ter repetido. O ponto de equilíbrio depende muito da faixa salarial, do Fator R e de quantos meses você pretende faturar. Em R$ 3.000 a CLT ganha com folga; em R$ 15.000 a PJ costuma ganhar. Calcule.

A segunda: se a diferença for pequena, lembre que a decisão nunca foi só sobre dinheiro. Estabilidade tem valor, e ele não aparece em nenhuma das duas colunas.

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