Investimentos

Juros compostos: por que o tempo importa mais que o valor do aporte

A conta que faz R$ 300 por mês virar R$ 1 milhão — e por que começar cinco anos antes vale mais que dobrar o aporte. Com exemplos e a fórmula explicada.

Por Aurelocomo apuramos5 min de leitura

Todo mundo já ouviu que juros compostos são poderosos. Poucos já viram o quanto — e menos ainda percebem que a variável mais poderosa não é quanto você guarda, é há quanto tempo.

A diferença, em números

Juros simples rendem sempre sobre o capital inicial. Juros compostos rendem sobre o capital mais os juros já acumulados.

R$ 10.000 a 1% ao mês:

PrazoJuros simplesJuros compostosDiferença
1 anoR$ 11.200R$ 11.268R$ 68
5 anosR$ 16.000R$ 18.167R$ 2.167
10 anosR$ 22.000R$ 33.004R$ 11.004
20 anosR$ 34.000R$ 108.926R$ 74.926
30 anosR$ 46.000R$ 359.496R$ 313.496

Repare no formato: nos primeiros anos a diferença é quase irrelevante. É por volta do décimo ano que ela começa a ficar séria, e depois do vigésimo ela domina completamente.

É por isso que juros compostos parecem uma promessa vazia para quem começou há dois anos, e uma força da natureza para quem começou há vinte.

A fórmula

Para um aporte único:

M = C × (1 + i)^n

Com aportes mensais:

M = C × (1 + i)^n + PMT × [((1 + i)^n − 1) ÷ i]

Onde C é o capital inicial, PMT o aporte mensal, i a taxa do período e n o número de períodos.

O que faz toda a diferença é onde o n está: no expoente. O aporte é linear; o tempo é exponencial.

O experimento que convence

Três pessoas, todas mirando os 60 anos, a 8% reais ao ano.

Ana começa aos 25 e guarda R$ 300 por mês. Ela aporta R$ 126.000 ao longo da vida e chega a cerca de R$ 1.048.000.

Bruno começa aos 35 e guarda R$ 600 por mês — o dobro. Ele aporta R$ 180.000, quase 43% a mais que Ana, e chega a cerca de R$ 895.000.

Carla começa aos 45 e guarda R$ 1.200 por mês — quatro vezes o de Ana. Ela aporta R$ 216.000 e chega a cerca de R$ 693.000.

Ana guardou menos que todo mundo, todo mês, e terminou com mais. A única coisa que ela tinha e os outros não era tempo.

Faça a sua versão desse teste na calculadora de juros compostos — mudar o prazo em cinco anos e ver o resultado costuma ser mais convincente que qualquer texto.

O erro de dividir a taxa por 12

Esse é o erro técnico mais comum, e ele sempre erra para o mesmo lado.

Uma taxa de 12% ao ano não é 1% ao mês. É 0,9489%, porque os juros compõem: (1,12)^(1/12) − 1.

E 1% ao mês não é 12% ao ano. É 12,68%: (1,01)^12 − 1.

A diferença parece desprezível e não é. Num financiamento de 30 anos, ela muda o total pago em dezenas de milhares de reais. O conversor de taxas faz a conta certa e mostra, lado a lado, quanto a conta errada superestima.

Use taxa real, não nominal

Se o investimento rende 12% ao ano e a inflação foi de 5%, você não ganhou 7%. A conta certa é:

taxa real = (1 + 0,12) ÷ (1 + 0,05) − 1 = 6,67%

Parece um detalhe. Em 30 anos, simular com 12% em vez de 6,67% produz um número três vezes maior — e completamente fictício em poder de compra.

Para qualquer projeção de longo prazo, use a taxa real. O número sai menor e significa alguma coisa.

Não esqueça o imposto

Renda fixa segue a tabela regressiva:

Prazo da aplicaçãoAlíquota de IR
Até 180 dias22,5%
De 181 a 360 dias20%
De 361 a 720 dias17,5%
Acima de 720 dias15%

O imposto incide só sobre o rendimento, e só no resgate. Isso cria um efeito que costuma passar despercebido: em produtos sem come-cotas, o imposto que você ainda não pagou continua rendendo para você. É mais uma razão pela qual permanecer investido bate girar a carteira.

Juros compostos contra você

A mesma matemática trabalha do outro lado.

O rotativo do cartão de crédito passa de 14% ao mês. Composto, isso ultrapassa 380% ao ano. Uma dívida de R$ 1.000 no rotativo, sem pagamento nenhum, vira cerca de R$ 4.800 em um ano.

Nenhum investimento acessível rende isso. Por isso quitar dívida cara é, matematicamente, o investimento de maior retorno garantido que existe — e vem antes de qualquer aplicação.

O que fazer com isso

  1. Comece agora, mesmo com pouco. R$ 100 por mês aos 25 vale mais que R$ 500 aos 40.
  2. Automatize. Transferência no dia seguinte ao salário elimina a decisão mensal, e é a decisão mensal que falha.
  3. Não interrompa. Sacar no meio reinicia a parte exponencial da conta.
  4. Quite a dívida cara primeiro. Não existe investimento que ganhe do rotativo.
  5. Simule com taxa real e nunca divida taxa anual por 12.

O gráfico dos juros compostos é quase reto por muito tempo e depois sobe de repente. A parte chata vem primeiro, e é ela que quase todo mundo abandona.

Ferramentas e tabelas citadas

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