Crédito e dívidas

Como sair das dívidas: a ordem que faz diferença

Pagar a dívida mais cara primeiro economiza mais. Pagar a menor primeiro faz você continuar. Veja como escolher, negociar e não voltar ao mesmo lugar.

Por Aurelocomo apuramos5 min de leitura

Sair de uma dívida tem duas partes: a matemática, que é simples, e a psicológica, que é onde quase todo mundo trava.

Este guia trata das duas — porque um plano matematicamente perfeito que você abandona no segundo mês vale menos que um plano imperfeito que você termina.

Passo 1 — Ponha tudo numa lista

Antes de qualquer estratégia, você precisa saber o tamanho do problema. Liste cada dívida com quatro colunas:

  • Credor
  • Saldo devedor hoje
  • Taxa de juros ao mês
  • Parcela mensal

A coluna que mais importa é a terceira, e é a que quase ninguém sabe de cabeça.

Passo 2 — Entenda a ordem de grandeza das taxas

As dívidas brasileiras não são todas iguais. Elas são de espécies diferentes:

Tipo de dívidaTaxa típica ao mêsEquivalente ao ano
Rotativo do cartão14% a 16%acima de 380%
Cheque especial7% a 8%acima de 125%
Parcelamento de fatura8% a 10%acima de 150%
Empréstimo pessoal3% a 6%43% a 100%
Crédito consignado1,5% a 2%20% a 27%
Financiamento imobiliário0,8% a 1%10% a 13%

A diferença entre o topo e a base dessa tabela é de mais de trinta vezes. É por isso que trocar dívida cara por dívida barata costuma ser a primeira e mais eficaz medida — mais eficaz até que apertar o orçamento.

Use o conversor de taxas para comparar propostas: taxa mensal e anual não se comparam diretamente, e é assim que uma oferta ruim passa por boa.

Passo 3 — Escolha a ordem de ataque

Existem duas estratégias, e as duas funcionam. A questão é qual funciona para você.

Avalanche: da maior taxa para a menor

Pague o mínimo de todas e concentre tudo o que sobrar na dívida de maior taxa. Quando ela acabar, o valor inteiro vai para a próxima.

É matematicamente ótima. Economiza mais juros e termina mais rápido.

O problema: se a dívida de maior taxa também for a maior em valor, você pode passar oito meses sem ver nenhuma vitória. E é aí que as pessoas desistem.

Bola de neve: do menor saldo para o maior

Pague o mínimo de todas e concentre o resto na dívida de menor saldo, independentemente da taxa.

Custa mais juros. Mas a primeira dívida some rápido — às vezes em semanas —, e a segunda logo depois. Cada dívida eliminada libera a parcela dela para a próxima, e a sensação de progresso é o que sustenta o esforço.

Qual escolher

Se a diferença entre as taxas for grande — rotativo de 14% contra consignado de 2% —, use avalanche. A diferença é grande demais para ignorar.

Se as taxas forem parecidas, use bola de neve. O ganho matemático é pequeno e a chance de você terminar é maior.

E se você já abandonou um plano antes, use bola de neve. Sério.

Passo 4 — Negocie

Dívida em atraso vale pouco para o credor. Uma dívida de R$ 5.000 vencida há dois anos frequentemente é vendida por menos de R$ 500 — o que explica por que descontos de 70% a 90% aparecem em campanha de renegociação.

O que ajuda na negociação:

  • Pagamento à vista consegue os maiores descontos.
  • Fim de mês, fim de trimestre e fim de ano são períodos de meta, e meta gera flexibilidade.
  • Feirões de renegociação (Serasa Limpa Nome, Mutirão do Banco Central) concentram as melhores ofertas.
  • Contraproposta funciona. A primeira oferta raramente é a melhor.

Duas armadilhas:

Parcelamento longo com desconto pequeno costuma ser pior que a dívida original. Faça a conta do total no simulador de empréstimo antes de aceitar.

Acordo que você não consegue pagar é pior que nenhum acordo: você perde o desconto, a dívida volta corrigida e sua credibilidade com aquele credor acaba. Negocie a parcela que cabe, não a que você gostaria que coubesse.

Passo 5 — Corte o sangramento

Não adianta pagar dívida enquanto se cria dívida nova. Enquanto durar o plano:

  • Tire o cartão da carteira e dos sites onde ele está salvo.
  • Peça redução do limite do cheque especial para perto de zero.
  • Cancele o que não usa. Uma revisão de assinaturas costuma liberar de R$ 80 a R$ 200 por mês.
  • Renegocie contratos fixos: plano de celular, internet, seguro. Ligar para cancelar frequentemente gera uma oferta melhor.

Passo 6 — Guarde uma reserva mínima antes de acelerar

Parece contraintuitivo pagar menos dívida para guardar dinheiro. Não é.

Sem nenhuma reserva, o primeiro imprevisto — pneu, dentista, remédio — volta para o cartão. Você paga dívida com uma mão e cria com a outra, e o plano nunca termina.

Junte de R$ 1.000 a R$ 2.000 primeiro, como amortecedor. Depois acelere o pagamento. Essa reserva mínima é o que impede o ciclo de recomeçar.

Seus direitos

  • Quitação antecipada tem desconto. O CDC (art. 52, §2º) garante redução proporcional dos juros futuros. O credor não pode recusar.
  • Cobrança abusiva é proibida. Ligação em horário impróprio, ameaça, exposição ao ridículo ou cobrança no trabalho violam o art. 42 do CDC.
  • Negativação tem prazo. Cinco anos, e depois disso o nome sai automaticamente — embora a dívida continue existindo.
  • Lei do Superendividamento (14.181/2020) permite pedir repactuação judicial de todas as dívidas, com preservação do mínimo existencial.

O que fazer depois

A parte mais difícil não é sair. É não voltar.

Quem sai de uma dívida grande e não muda nada no orçamento volta ao mesmo lugar em um ou dois anos — porque a causa continua lá. Quando a última parcela for paga, redirecione o valor dela imediatamente: para a reserva de emergência, primeiro; para investimento, depois.

Aquele dinheiro já não fazia falta no seu mês. Deixá-lo solto é entregá-lo de volta ao consumo, e reiniciar o ciclo.

Ferramentas e tabelas citadas

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